{"id":46876,"date":"2010-10-20T04:12:41","date_gmt":"2010-10-20T04:12:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodominicano.ddns.net\/?p=46876"},"modified":"2010-10-20T04:12:41","modified_gmt":"2010-10-20T04:12:41","slug":"brasilo-sus-e-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodominicano.com\/?p=46876","title":{"rendered":"Brasil&#13;&#13;O sus e EU"},"content":{"rendered":"<p><body><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Frei Betto<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Todos sabemos que o sistema de sa\u00fade do Brasil est\u00e1  longe da perfei\u00e7\u00e3o. O que explica cerca de 40 milh\u00f5es de inscritos em planos  privados de sa\u00fade. Esses privilegiados preferem pagar mensalmente pela aten\u00e7\u00e3o  m\u00e9dica, convencidos de que, ao dela necessitarem, os cuidados recebidos far\u00e3o  jus ao dinheiro despendido. <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Ora, na pr\u00e1tica a teoria \u00e9 outra. Quase nunca o  cliente l\u00ea as mi\u00fadas letrinhas dos contratos e quase sempre se sente lesado ao  passar de cliente a paciente. H\u00e1 sempre um sen\u00e3o&#8230; um tipo de exame n\u00e3o  inclu\u00eddo, uma certa qualidade de interna\u00e7\u00e3o n\u00e3o prevista, uma cirurgia a ser  paga ?por fora? etc. Os Procons est\u00e3o repletos de queixas desse  tipo.<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Tamb\u00e9m sou privilegiado. Pago todo m\u00eas  mais de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para me manter sob os eventuais cuidados de um dos  mais conhecidos planos de sa\u00fade do Brasil. <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Ocorre que mal-estar e acidentes n\u00e3o mandam aviso  pr\u00e9vio. Nem escolhem dia da semana. No domingo, 3 de outubro, pouco depois das  oito da manh\u00e3, a caminho de minha se\u00e7\u00e3o eleitoral, senti forte dor no lado  esquerdo do peito, como nunca me havia passado. A impress\u00e3o era de que tinha  levado um soco no t\u00f3rax. Continuei o percurso do convento \u00e0 PUC-SP, uma  dist\u00e2ncia de duzentos metros, desconfiado de ter sido acometido de um infarto.  N\u00e3o senti tontura, apenas a dor que se irradiava pelo lado avesso do peito.  <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Subi com dificuldade a rampa da PUC e quase me sentei  para recuperar o f\u00f4lego. Teimoso, prossegui rumo ao meu dever c\u00edvico.  (Sinto-me honrado em votar e serei a favor do voto facultativo no dia em que  for tamb\u00e9m facultativo pagar impostos). <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Ao me apresentar na se\u00e7\u00e3o eleitoral, a dor persistia.  N\u00e3o consegui me debru\u00e7ar sobre a mesa para assinar o termo de comparecimento.  Precisei erguer o papel. Pensei ao entrar na cabine: ?Morro, mas com meu dever  de cidad\u00e3o cumprido.?<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Eis que, na sa\u00edda, me bateu forte ardor c\u00edvico. ?Votei  em prol da melhoria deste pa\u00eds. Tenho direito, como cidad\u00e3o, a atendimento  m\u00e9dico pelo SUS. Por que n\u00e3o recorrer a ele no dia da  elei\u00e7\u00e3o??<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Devido \u00e0s minhas rela\u00e7\u00f5es de amizade,  poderia ter buscado um atendimento privado. Ou interna\u00e7\u00e3o em hospital  conveniado com o meu plano de sa\u00fade. Anos atr\u00e1s, ao apresentar o doutor Adib  Jatene a Fidel Castro, num evento cient\u00edfico em Havana, o destacado  cardiologista me disse \u00e0 guisa de agradecimento: ?Se um dia precisar de meus  servi\u00e7os m\u00e9dicos, estarei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.? Respondi-lhe: ?Agrade\u00e7o, doutor, mas  queira Deus que eu nunca me sinta obrigado a recorrer a  eles.?<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Tomei um t\u00e1xi \u00e0 porta da PUC e mandei  tocar para o Hospital das Cl\u00ednicas. Na recep\u00e7\u00e3o do Pronto Socorro, informei a  uma funcion\u00e1ria que necessitava de atendimento. Talvez estivesse com um  princ\u00edpio de infarto. <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Fui encaminhado \u00e0 enfermeira Adriana, que me tirou a  press\u00e3o: 14&#215;8. Fez a minha ficha e mandou me apresentar a um funcion\u00e1rio que  me pediu n\u00fameros de identidade, CEP e telefone. N\u00e3o consegui lembrar de nenhum  deles, embora a dor j\u00e1 se mostrasse menos agressiva. \u00c9 que andava com a mente  e o cora\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela vida que me foi dada viver. Talvez tivesse  chegado a minha hora. Um pouco mais cedo do que eu esperava. Mas quem \u00e9 capaz  de prever dia e hora da pr\u00f3pria morte? N\u00e3o diz Jesus que ela vir\u00e1 como o  ladr\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Tranquilizou-me n\u00e3o tem\u00ea-la. N\u00e3o tanto  pela f\u00e9 que me anima, e sim pelo sentido que imprimo \u00e0 minha vida.  <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Da burocracia fui remetido a uma sala de espera, onde  deixei a ficha sobre um balc\u00e3o. Havia ali outras pessoas \u00e0 espera de  atendimento. Quinze minutos depois a ficha foi recolhida e, em menos de dez  minutos, chamado a um consult\u00f3rio. A doutora Seila tirou-me a press\u00e3o, agora  13&#215;8, e me encaminhou \u00e0 doutora Beatriz A. Martins, diplomada ano passado.  <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Enquanto me movo de um lado a outro no Pronto Socorro,  vejo o ?circo dos horrores?: macas espalhadas pelos corredores; policiais  trazendo v\u00edtimas de facadas, tiros e atropelamentos; mulheres gr\u00e1vidas  preocupadas com o parto precoce; gritarias; e sangue, muito sangue. Mas havia  em tudo aquilo uma l\u00f3gica: todos que necessitavam de atendimento de emerg\u00eancia  mereciam os devidos cuidados, ainda que os primeiros socorros fossem prestados  nos corredores. <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Doutora Beatriz retirou-me sangue e me fez ingerir  dois comprimidos de AS. Em seguida, na sala de eletrocardiograma a enfermeira  Ester me cobriu de fios. O eletro deu ?normal?. Frequ\u00eancia card\u00edaca: 78  batidas por minuto. Ester me comunicou que infarto n\u00e3o tive. (A essa altura, a  dor se resumia a um ponto no fundo do cora\u00e7\u00e3o). <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Fui remetido de novo \u00e0 dra. Beatriz, que se fazia  acompanhar pelo dr. Francisco Mazon. Pediu que eu retornasse \u00e0 sala de espera  at\u00e9 o resultado do exame de sangue ficar pronto. <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Eram 10h. Preocupava-me a ida para Curitiba, convidado  a participar, na tarde do mesmo dia, de debate na Bienal do Livro do Paran\u00e1.  Meu voo sairia \u00e0s 14h. Esperei at\u00e9 as 12h. Retornei \u00e0 dra. Beatriz para avisar  que iria embora. Ela me advertiu que deveria aguardar mais 40 minutos. Insisti  que n\u00e3o podia esperar. Ela disse enf\u00e1tica: ?N\u00e3o podemos lhe dar alta. Se o  senhor se for, ser\u00e1 caracterizado como evas\u00e3o hospitalar. E corre o risco de  morrer em pleno voo.?<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Em nome de meu oficio de escritor, optei pelo risco de  morte e cometi o delito da evas\u00e3o. Cheguei a tempo no aeroporto.  <\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Ningu\u00e9m no Hospital das Cl\u00ednicas me identificou pelo  nome que sou conhecido. Fui tratado como qualquer outro cidad\u00e3o. E conclu\u00ed  que, ao menos ali, o SUS funciona. E muito bem. Eu \u00e9 que sou um paciente  impaciente&#8230;<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Tudo indica que a dor adveio de uma  contra\u00e7\u00e3o muscular. Na v\u00e9spera, indiferente \u00e0 minha h\u00e9rnia de disco, ajudei a  arrastar uma mala com 70kg de livros. Fiz um esfor\u00e7o superior \u00e0s minhas  for\u00e7as. Menos de vinte e quatro depois o organismo emitiu o seu  protesto&#8230;<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">&#8211; Frei Betto \u00e9 escritor, autor, em parceria com Leonardo  Boff, de ?M\u00edstica e Espiritualidade?, que a editora Vozes faz chegar esta  semana \u00e0s livrarias. www.freibetto.org ? twitter:@freibetto<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">Copyright 2010 ? FREI BETTO ? N\u00e3o \u00e9 permitida a reprodu\u00e7\u00e3o deste artigo em qualquer  meio de comunica\u00e7\u00e3o, eletr\u00f4nico ou impresso, sem autoriza\u00e7\u00e3o do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receber\u00e1 diretamente em seu e-mail. Contato ? MHPAL ? Ag\u00eancia Liter\u00e1ria (mhpal@terra.com.br)<\/span><\/p>\n<\/p>\n<p><span class=\"text1noticias\">http:\/\/alainet.org\/active\/41455<\/span><\/p>\n<\/p>\n<h6> 2010-10-20 04:12:41 <\/h6>\n<p><!--\n<link rel=\"stylesheet\" href=\"css\/bootstrap.min.css\">\n\n\n<ul class=\"pagination\">\n\t    \n\t\n\n<li >\n\t<a href='?page_no=9444'>Previous<\/a>\n\t<\/li>\n\n\n       \n    \n\n<li><a href='?page_no=1'>1<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=2'>2<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a>...<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=9443'>9443<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=9444'>9444<\/a><\/li>\n\n\n\n<li class='active'><a>9445<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=9446'>9446<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=9447'>9447<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a>...<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=13611'>13611<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href='?page_no=13612'>13612<\/a><\/li>\n\n    \n\t\n\n<li >\n\t<a href='?page_no=9446'>Next<\/a>\n\t<\/li>\n\n\n    \n\n<li><a href='?page_no=13612'>Last &rsaquo;&rsaquo;<\/a><\/li>\n\n<\/ul>\n\n\n--><br \/>\n<\/body><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Betto Todos sabemos que o sistema de sa\u00fade do Brasil est\u00e1 longe da perfei\u00e7\u00e3o. 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